Estima-se que em 2025 tenham surgido quase 20 milhões de novos casos de cancro diagnosticados globalmente, com mais de 10 milhões de mortes registadas nesse ano. Em Portugal, os dados completos mais recentes remontam a 2021, que é quando foram diagnosticados 60.717 novos casos e 27.577 óbitos, sendo o cancro a segunda causa de morte na altura, segundo o Registo Oncológico Nacional.
Dados da Direção-Geral da Saúde (DGS), divulgados hoje, no dia em que se assinala o Dia Mundial do Cancro, indicam que em Portugal, entre 2020 e 2024, foram realizadas mais de 31.178 cirurgias oncológicas, correspondendo a um aumento de 67% no número de doentes operados por doença oncológica, mas um em cada quatro ainda foram operados acima do tempo máximo de resposta em 2024.
Embora a nível nacional a incidência de cancro se situe próxima da média da União Europeia, as projeções indicam um aumento de aproximadamente 20% nos casos até 2040, segundo o relatório Country Cancer Profile 2025 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OECD), o que sublinha a urgência de investir em investigação, prevenção e desenvolvimento de novas terapêuticas. Esta realidade tem incentivado o desenvolvimento de soluções inovadoras por parte das empresas portuguesas de biotecnologia, que procuram responder às necessidades específicas da população através de abordagens adaptadas ao contexto nacional e global.
O ecossistema de inovação oncológica em Portugal
Em anos recentes, há um aumento no número de doentes oncológicos com acesso a tratamentos inovadores, como é o caso de terapias com células CAR-T. Apesar de a imunoterapia CAR-T já estar a ser utilizada em Portugal, tendo mais de uma centena de pacientes sido tratados com a tecnologia, a sua utilização apresenta barreiras económicas e logísticas, estando totalmente dependente de centros de produção no estrangeiro.
Num projeto inédito, de nome “CAR T-Matters – Transformar o panorama da terapia com células CAR-T em Portugal”, um consórcio liderado pela empresa biotecnológica Stemmatters, em parceria com o Instituto Português de Oncologia do Porto e a Unidade de investigação UCIBIO da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, vai desenvolver as condições para a produção de células CAR-T em Portugal.
Para além do projeto CAR T-Matters, a farmacêutica Lxbio Pharmaceuticals inaugurou em abril do ano passado um laboratório de investigação e desenvolvimento de medicamentos biológicos em Lisboa, incluindo células CAR-T e anticorpos monoclonais. A empresa pretende ainda levantar capital para potenciar o desenvolvimento de soluções terapêuticas e expandir a sua infraestrutura tecnológica. No domínio oncológico, o desenvolvimento de anticorpos monoclonais e terapias CAR-T posiciona a empresa como um player relevante no ecossistema de inovação em biotecnologia.
Em 2024, a startup CellmAbs vendeu terapias contra o cancro à BioNTech, apenas 5 após a sua criação, naquele que é um dos maiores negócios nacionais na área da biotecnologia e uma demostração das capacidades nacionais em investigação na área oncológica. As terapias, que podem resultar no primeiro medicamento português inovador para a oncologia a ir para o mercado, baseiam-se em anticorpos monoclonais específicos para antigenes do cancro, focando em conjugados de droga-anticorpos.
No mês passado, a Universidade de Coimbra anunciou que seus investigadores e investigadores da empresa biotecnológica Luzitin desenvolveram uma molécula inovadora para o tratamento de tumores sólidos através de Terapia Fotodinâmica. A molécula, denominada LUZ51 e patenteada, é o mais pequeno fotossensibilizador conhecido que absorve luz infravermelha, permitindo não só ultrapassar o desafio de infiltração para alcançar as células tumorais, como também permite tratar tumores apenas na área iluminada. Testes pré-clínicos demostraram que a terapia com LUZ51 permite curar tumores agressivos e relativamente grandes, com reduzidos efeitos adversos.
No campo de diagnóstico, a spin-off algarvia expressTEC desenvolveu uma plataforma tecnológica que utiliza a análise de RNA combinada com algoritmos de aprendizagem automática para personalizar testes de elegibilidade a terapias alvo em oncologia. Esta abordagem permite identificar quais os pacientes que têm maior probabilidade de responder a determinados tratamentos, evitando a administração de terapêuticas ineficazes e os efeitos secundários associados. A plataforma desenvolvida pela empresa permite a estratificação dos pacientes baseada em marcadores moleculares, melhorando as taxas de resposta aos tratamentos e, consequentemente, a sobrevivência dos pacientes.
Utilizando também inteligência artificial e genómica no diagnóstico está a Ophiomics, cujo foco está na medicina de precisão hepática. A empresa de biotecnologia e medtech pioneira desenvolveu um produto comercial à base de dados genómicos e modelos preditivos que permitem uma caracterização detalhada dos tumores hepáticos, facilitando a seleção do tratamento mais adequado para cada paciente. Esta medicina de precisão hepática responde à crescente necessidade de personalizar as decisões terapêuticas com base no perfil molecular de cada tumor.
Ainda no campo da medicina de precisão, a Beat Therapeutics concentra-se no desenvolvimento de novos candidatos terapêuticos para cancros agressivos e com opções de tratamento limitadas, respondendo assim a necessidades médicas não satisfeitas. Visando explorar as vulnerabilidades biológicas específicas dos tumores, a empresa tem como principal candidato a fármaco, para tratamento do cancro do pâncreas, uma molécula pioneira que inibe uma via crucial no processo de reparação do ADN das células cancerígenas, tendo demonstrado elevada eficácia terapêutica em ensaios pré-clínicos.
A startup TargTex está a desenvolver uma formulação em hidrogel com um fármaco nanodisperso, desenvolvido como terapia adjuvante à cirurgia no tratamento do glioblastoma (GBM), o tumor cerebral mais comum e maligno. Esta abordagem inovadora, que recebeu a designação de Medicamento Órfão (Orphan Drug Designation) pela U.S. Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento de gliomas malignos, permite uma difusão superior do fármaco no parênquima cerebral, eliminando as células tumorais não ressecadas que levam à recorrência da doença. A empresa está ainda a desenvolver outras terapias contra tumores de difícil tratamento.
Fundada em 2024 pelo fundador da CellmAbs, a Valvian dedica-se ao desenvolvimento de imunoterapias e terapias dirigidas para o tratamento de doenças oncológicas, com foco particular nos anticorpos monoclonais e nas terapias celulares avançadas, incluindo as células CAR-T e CAR-DC. A abordagem inovadora da Valvian centra-se especificamente nos tumores sólidos, um desafio significativo para a imunoterapia oncológica, uma vez que a maioria das terapias CAR-T aprovadas atuam principalmente em cancros hematológicos.
Uma nota de esperança e um compromisso com o futuro da oncologia
O Dia Mundial do Cancro oferece uma oportunidade para refletir o trabalho fundamental desenvolvido pelo setor de biotecnologia na luta contra esta doença. Em Portugal, onde se prevê um aumento significativo dos casos de cancro nas próximas décadas, este ecossistema de inovação reveste-se de importância estratégica. Os avanços na investigação, o desenvolvimento de novas terapêuticas e a crescente capacidade de personalizar os tratamentos oferecem razões para otimismo moderado. A mensagem do Dia Mundial do Cancro convida à unidade e à ação coletiva. Em Portugal, esta unidade materializa-se através da colaboração entre instituições de investigação, hospitais, universidades e empresas de biotecnologia. O trabalho desenvolvido pelas empresas biotecnológicas exemplifica como a ciência e a inovação podem transformar a realidade oncológica, oferecendo novas opções terapêuticas a pacientes que, há poucos anos, dispunham de alternativas limitadas. Num cenário global marcado por projeções preocupantes, o contributo destas empresas representa uma nota de esperança e um compromisso com o futuro da oncologia.
P-BIO
4 de fevereiro de 2026
