No Dia Mundial da Saúde, que se assinala hoje, 7 de abril, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lança o tema “Together for health. Stand with science” (“Juntos pela saúde. Apoie a ciência”), sublinhando que a ciência e a colaboração são os dois motores que melhor podem impulsionar a saúde das populações. A campanha deste ano convida governos, instituições e cidadãos a colocar o conhecimento científico no centro das políticas de saúde, a investir na abordagem One Health (que articula a saúde humana, animal e dos ecossistemas) e a reforçar a preparação para futuras pandemias.
Saúde no mundo: progressos, desafios e a aposta na ciência
Os últimos anos foram marcados por avanços históricos na saúde global. A OMS assinala que, desde 2000, a mortalidade materna caiu mais de 40% e a mortalidade infantil foi reduzida em mais de 50%. Graças a vacinas, antibióticos, técnicas de imagem e ao mapeamento do genoma humano, doenças que antes eram sentenças de morte tornaram‑se, hoje, controláveis ou curáveis.
No entanto, o progresso não é linear. As alterações climáticas, a degradação ambiental, as tensões geopolíticas e o envelhecimento populacional estão a criar novas vulnerabilidades. Mais de 60% das doenças infeciosas conhecidas e até 75% das doenças emergentes têm origem animal, e a resistência antimicrobiana (AMR) poderá causar 10 milhões de mortes anuais até 2050 se não forem tomadas medidas urgentes. Ao mesmo tempo, as doenças não transmissíveis (DNT) – como as cardiovasculares, o cancro, a diabetes e as doenças respiratórias crónicas – são responsáveis pela maioria das mortes no mundo.
Saúde em Portugal: um sistema resiliente, mas com desafios crescentes
Em Portugal, esperança de vida à nascença situa‑se nos 81,49% anos (dados de 2024), acima da média europeia, e a taxa de mortalidade evitável é 15,77% inferior à média da UE. O país destaca‑se também na área da saúde digital, com uma pontuação global de 88% em maturidade digital, superando a média comunitária.
Contudo, certos desafios persistem e agravam. O envelhecimento populacional (cerca de quatro milhões de portugueses sofrem de pelo menos uma doença crónica) e o aumento das doenças não transmissíveis pressionam o sistema. O Orçamento do Estado para 2026 prevê uma despesa consolidada na saúde superior a 17,3 mil milhões de euros, com o objetivo de aumentar consultas e cirurgias e reduzir as listas de espera. Apesar destes investimentos, persistem dificuldades de acesso, nomeadamente nos cuidados primários e na distribuição geográfica de recursos.
É neste ambiente que as empresas portuguesas de biotecnologia têm vindo a afirmar‑se como parceiras estratégicas da inovação em saúde, oferecendo soluções que vão desde novos fármacos a dispositivos médicos inteligentes e plataformas de diagnóstico de precisão.
A inovação biotecnológica para a saúde em Portugal
No campo do cancro – a segunda causa de morte em Portugal – várias empresas têm criado abordagens inovadoras. A Beat Therapeutics desenvolve terapias que exploram vulnerabilidades específicas dos tumores, com especial foco no cancro do pâncreas. A Valvian aposta na glicobiologia e no uso de inteligência artificial para descobrir anticorpos monoclonais de nova geração. A Ophiomics desenvolveu um produto comercial à base de dados genómicos e modelos preditivos que permitem uma caracterização detalhada dos tumores hepáticos, facilitando a seleção do tratamento mais adequado para cada paciente. Já a expressTEC combina análise de RNA com algoritmos de inteligência artificial para personalizar a elegibilidade a terapias‑alvo.
Para lá da oncologia, as doenças raras e neurodegenerativas afetam milhões de pessoas em todo o mundo, e muitas continuam sem tratamento eficaz. Em Portugal, a NeuroSoV desenvolve o composto N1(4)inh‑IL com o objetivo de retardar ou parar a progressão da doença de Parkinson. A Aquracy Therapeutics foca‑se nas doenças PolyQ e na Síndrome de Cockayne, utilizando terapia de aumento genético.
O diagnóstico precoce e a medicina personalizada são outros pilares da saúde moderna. A Invitek Diagnostics oferece soluções de diagnóstico molecular para áreas como a segurança alimentar, o diagnóstico clínico humano e veterinário, e a investigação em ciências da vida. A CoLAB TRIALS apoia o desenvolvimento de produtos de saúde inovadores (medicamentos, dispositivos médicos e software como dispositivo médico), assegurando a conformidade regulamentar e o planeamento de ensaios clínicos.
Para que a ciência saia do laboratório e chegue aos doentes, são necessárias estruturas de translação. A CoLAB AccelBio atua exatamente nessa interface: valida alvos biológicos, desenvolve plataformas de medicina computacional e modelos de organóides, reduzindo o risco no desenvolvimento de novos fármacos e preparando‑os para licenciamento industrial. A Stemmatters lidera o consórcio CAR T‑Matters, que visa criar capacidade de produção nacional de terapias com células CAR‑T, diminuindo a dependência de centros estrangeiros.
A biotecnologia nacional tem também explorado territórios científicos de vanguarda. A Bac3Gel produz modelos in vitro prontos a utilizar, que imitam as camadas de muco de diferentes partes do corpo – oral, intestinal, cervicovaginal, entre outras – acelerando a investigação e o desenvolvimento de novos medicamentos e terapias. Já a BestHealth4U desenvolveu o Bio2Skin, uma nova geração de adesivos médicos que protegem a pele enquanto garantem a fixação segura de dispositivos médicos.
Na área das infeções e da resistência antimicrobiana, a Immunethep está a desenvolver imunoterapias antibacterianas de elevada cobertura, estando a sua vacina PNV pronta para entrar em ensaios clínicos, e visa proteger contra bactérias responsáveis por 80% das infeções bacterianas. Do laboratório para o mar e do mar para o laboratório: a Sea4us está a transformar compostos marinhos em terapias inovadoras para necessidades clínicas ainda sem resposta, tendo identificado um novo analgésico não opioide para o tratamento da dor crónica.
A Solfarcos, especializada em I&D de cosméticas e farmacêuticos, desenvolveu uma inovadora nanotecnologia de metotrexato (FBL‑MTX), direcionada para o tratamento da artrite reumatóide, que se encontra na reta final do ensaio clínico de Fase 2a. Por fim, a VectorB2B atua como uma Contract Research Organization (CRO) que reúne competências multidisciplinares para acelerar a inovação na área da saúde, oferecendo serviços desde a fase de descoberta até aos ensaios clínicos.
Um futuro de saúde construído com ciência e colaboração
O tema do Dia Mundial da Saúde 2026 – “Together for health. Stand with science” – encontra nas empresas biotecnológicas portuguesas um exemplo concreto de como a ciência, quando aliada à colaboração entre universidades, hospitais e indústria, pode transformar a saúde. Desde a produção de anticorpos monoclonais em território nacional até à criação de plataformas de diagnóstico baseadas em inteligência artificial, o setor da biotecnologia português demonstra que é possível inovar com qualidade, ética e foco no doente.
Num momento em que a OMS apela a um maior investimento na abordagem One Health e na preparação para futuras crises sanitárias, essas empresas estão a construir as soluções de que Portugal e o mundo precisam. O caminho é exigente, mas o compromisso com a ciência e com a saúde de todos é uma aposta ganha.
P-BIO
7 de abril de 2026
