Dia Internacional da Biodiversidade: da Inovação Vegetal à Bioeconomia Regional e Azul, o roteiro da Biotecnologia portuguesa

Estima-se que existam em Portugal cerca de 35000 espécies de animais e plantas, correspondendo a cerca de 22% do total europeu e 2% do total mundial. Este vasto património genético, terrestre e marítimo, de biodiversidade representa desafios e oportunidades. 

Por exemplo, em 2020, existiam cerca de 3300 espécies de plantas vasculares em Portugal. Numa avaliação de uma pequena amostra de 630 plantas, constatou-se que cerca de 60% (381 plantas) encontram-se ameaçadas. Da mesma forma, a lista vermelha da UICN de 2024 indica que 141 plantas (em geral) estão desde criticamente em perigo a vulneráveis, enquanto 89 peixes e 86 moluscos são espécies ameaçadas.

Por outro lado, estima-se que que existam enormes volumes de biomassa florestal residual (potencial de 2.8 milhões de toneladas) e resíduos do setor agroalimentar (mais de 1.9 milhões de toneladas) subaproveitados em Portugal, acumulando-se no território ou sendo eliminados de forma linear. No mar, a vasta biodiversidade marinha e o potencial das biotecnologias azuis e celulares ainda têm uma larga margem de progressão para substituir indústrias extrativas lineares por soluções sustentáveis que gerem saúde e valor. Este subaproveitamento de recursos biológicos constitui uma oportunidade para a criação de soluções de base biológica.

Hoje, em que se celebra o Dia Internacional da Biodiversidade (22 de maio), olhamos para as empresas, entidades e projetos que olham para o património natural como uma dinâmica viva onde a preservação e a valorização económica sustentável devem caminhar juntas.

A Escala Molecular: Deifil e a salvaguarda genética da flora

A conservação da biodiversidade começa, muitas vezes, em ambientes controlados de laboratório. É aqui que o trabalho da Deifil se destaca como uma referência internacional. Através da micropropagação vegetal — uma técnica de cultura de tecidos in vitro —, a empresa consegue replicar e produzir em grande escala plantas de alto valor acrescentado, isentas de doenças e geneticamente idênticas à planta-mãe.

Entre as plantas micropropagadas encontra-se o castanheiro, uma planta importante culturalmente, gastronomicamente e economicamente para Portugal, que é afligido por diferentes ameaças fitossanitárias, climáticas e socioeconómicas. 

A abordagem de micropropagação responde diretamente à pressão sobre os ecossistemas naturais, permitindo a reflorestação e o abastecimento agrícola sem esgotar as populações selvagens. Isso também é possível por causa do grande volume de plantas que essa técnica permite produzir, sendo 2 milhões de plantas anualmente, no caso da Deifil.  

Esta visão de liderança de inovação com propósito foi também o mote para o episódio do P-BIO Podcast onde conversámos com Andreia Afonso, CEO e Co-fundadora da Deifil, que partilhou a jornada de transformar ciência de bancada num negócio global de sustentabilidade.

A Escala Territorial: BioINSouth e a Valorização do Hub Centro

Se a Deifil protege a biodiversidade ao nível da célula, o projeto europeu BioINSouth atua sobre o que continua subaproveitado no território. O grande desafio atual da bioeconomia não é apenas produzir bioprodutos, mas garantir que os recursos biológicos regionais — e os seus subprodutos — entram em cadeias de valor circulares. 

O BioINSouth tem como principal objetivo auxiliar os decisores políticos das regiões do sul da Europa na integração de limites ecológicos nas suas estratégias de bioeconomia. Através do desenvolvimento de diretrizes e ferramentas digitais, o projeto busca promover atividades circulares baseadas em bio-recursos, ao mesmo tempo que minimiza o impacto ambiental.

A P-BIO tem liderado esta transição no terreno através da dinamização do Bioeconomy HUB Centro. O HIB da Região Centro reúne entidades-chave das indústrias, academia e decisores locais para mapear recursos biológicos subaproveitados (resíduos agrícolas, biomassa florestal e efluentes) e, através da biotecnologia industrial, convertê-los em matéria-prima de alto valor para novos bioprodutos.

BioINSouth é uma iniciativa europeia financiada pelo Circular Bio-based Europe Joint Undertaking (CBE JU) e focada no desenvolvimento sustentável da bioeconomia nas regiões do sul da Europa. Este projeto, lançado no passado dia 1 de junho, e com término previsto para 31 de maio de 2027, visa equilibrar o crescimento do setor da bioeconomia com considerações ambientais essenciais.

A Escala Azul: preservação, saúde e inovação no oceano

O desenvolvimento de uma bioeconomia azul sustentável é catalisado pela BlueBio Alliance, a rede nacional que une o ecossistema de biotecnologia marinha. Ao impulsionar a valorização de recursos marinhos biológicos de forma responsável, a BlueBio Alliance demonstra que o oceano pode ser uma fonte de soluções inovadoras para várias indústrias sem comprometer o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

Focada no estudo da biodiversidade do mar profundo, a startup biotecnológica Sea4Us estuda ecossistemas marinhos (como esponjas marinhas) para isolar compostos bioativos com potencial farmacêutico. O seu principal projeto foca-se no desenvolvimento de um novo analgésico de nova geração para combater a dor crónica, sem os efeitos secundários dos opioides. A startup anunciou no início deste mês a aprovação do seu pedido de autorização para ensaio clínico pelas autoridades regulamentares. Para além disso, a Sea4Us submeteu três pedidos de patentes, tendo duas sido concedidas nos Estados Unidos, e a terceira entrou em PCT em 2025 e foi publicada em janeiro de 2026. O trabalho da Sea4Us prova que a preservação da biodiversidade marinha é também uma questão de saúde pública: ao protegermos estes habitats desconhecidos, protegemos as curas médicas do futuro.

Por sua vez, um exemplo prático de exploração sustentável e regenerativa no setor alimentar é a Oceano Fresco. Focada na produção de bivalves (moluscos) em mar aberto, a empresa combina a investigação científica com técnicas inovadoras de cultivo. Ao produzir bivalves — filtradores naturais —, a empresa reduz o impacto nos bancos selvagens e regenera ativamente os ecossistemas marítimos. Este é um trabalho pioneiro a nível mundial no que toca ao cultivo de bivalves regenerativo. Para conhecer a fundo os bastidores desta abordagem, pode ouvir o episódio do P-BIO Podcast onde entrevistámos Bernardo Carvalho, CEO da Oceano Fresco, que explica como a ciência aplicada transforma a aquicultura. Além disso, a visão técnica e científica do projeto é explorada brevemente na entrevista com Andreia Cruz, Gestora Sénior de I&D/Inovação na Oceano Fresco, para os “Caminhos da Biotecnologia“.

A Cell4Food foca-se na segurança alimentar e na proteção das espécies em risco crítico. Esta start-up dedica-se ao desenvolvimento de tecnologias de agricultura celular para a produção sustentável de alimentos à base de células de peixe, moluscos e crustáceos. Ao produzir tecidos em biorreatores diretamente a partir de células, sem necessidade de pescar ou recorrer à aquicultura intensiva, a Cell4Food desenha uma alternativa real para abastecer o mercado alimentar global. A empresa lidera o projeto biotecnológico português CellBlue recebeu cerca de 1.5 milhões de euros para desenvolver produtos alimentares à base de polvo. Trata-se de uma resposta cirúrgica para travar o declínio de espécies selvagens, permitindo o repovoamento dos mares e protegendo diretamente espécies que integram a preocupante Lista Vermelha nacional. 

O Futuro é Coletivo

Unir o pioneirismo biotecnológico da Deifil a visão circular do BioINSouth e do HUB Centro, e a disrupção azul da BlueBio Alliance, Sea4Us, Oceano Fresco e Cell4Food prova que Portugal tem o roteiro ideal para liderar a bioeconomia no Sul da Europa. Proteger a biodiversidade já não significa travar o progresso; significa acelerar a biotecnologia da terra ao mar.

P-BIO

22 de maio de 2026

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