Panorama Nacional

As áreas da Biotecnologia com maior impacto em Portugal são as da Biotecnologia Farmacêutica e Industrial. A Biotecnologia Farmacêutica está ligada principalmente ao desenvolvimento e comercialização de biofármacos, vacinas recombinantes e métodos de diagnóstico, que movimentam mais de 10 biliões de Euros na UE, representando 0.25% do valor acrescentado bruto. A Biotecnologia permite oferecer tratamento para um alargado leque de doenças incluindo certos tipos de cancro, ou vacinas inovadoras, bem como permite a deteção rápida de agentes patógenos.

A adoção de processos Biotecnológicos na Indústria está ligada a um aumento da produtividade do trabalho de 10 a 20%

A Biotecnologia Industrial engloba as aplicações da Biotecnologia em diferentes indústrias como a têxtil (acabamentos têxteis, por exemplo), da pasta e papel, alimentar (processamento de lacticínios, açúcar e produção de ingredientes), de plásticos, químicos e biocombustíveis (essencialmente bio-etanol). Uma parte importante deste setor é a produção de enzimas (usadas, por exemplo, nos detergentes) que só a nível Europeu movimenta perto de 2 biliões de Euros, representando 0.05% do valor acrescentado bruto da UE. Neste setor, estima-se ainda que a percentagem de produtos químicos produzidos por aplicação da Biotecnologia atinja os 20% nos próximos 5 anos. A adoção de processos Biotecnológicos na Indústria está ligada a um aumento da produtividade do trabalho de 10 a 20%, permitindo reduções significativas dos consumos energéticos e de água e de emissões de dióxido de carbono, quando comparado com os processos químicos tradicionais.

Sendo um setor altamente inovador e com uma importante base científica, o seu desenvolvimento num país ou região é determinado por uma série de fatores ligados à existência de recursos humanos qualificados e de instituições de investigação. Para além disso, o setor empresarial da biotecnologia caracteriza-se por médios a elevados investimentos necessários ao desenvolvimento de novos produtos ou processos, associados a tempos de retorno relativamente longos. Assim, a somar aos fatores referidos, o desenvolvimento do setor exige a existência de condições favoráveis ao investimento.

Portugal tem investido significativamente do lado da geração de conhecimento científico, em projetos e instituições de investigação, tendo conseguido alcançar indicadores em I&D na área que o colocam entre os melhores países da Europa. Esses indicadores abrangem não só artigos científicos mas também patentes e projetos de aplicação industrial. Alguns factos ilustram este esforço:

  • Atualmente, 5 dos 25 Laboratórios Associados existentes dedicam-se à Biotecnologia, contemplando sensivelmente 28% do total de Recursos Humanos (mais de 300 Doutorados) e do financiamento relativo aos Laboratórios Associados;
  • Existem ainda 7 Centros de Investigação reconhecidos pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia como Muito Bons ou Excelentes que incorporam mais 140 Doutorados;
  • O valor alocado à Biotecnologia no financiamento de projetos de investigação científica tem sido superior a 10% nos últimos anos;
  • A percentagem de publicações em revistas científicas internacionais em Biotecnologia face ao número de publicações totais é ligeiramente superior à média Europeia;
  • O número de patentes ligadas à Biotecnologia tem vindo a aumentar exponencialmente, representando estas cerca de 10% de todas as patentes internacionais submetidas por inventores portugueses, uma percentagem que representa quase o dobro da média da União Europeia e da OCDE

Simultaneamente, o número de empresas de Biotecnologia nacionais tem aumentado significativamente ao longo da última década, verificando-se alguma incorporação do conhecimento proveniente do seio dos centros de investigação e de recursos humanos altamente qualificados:

  • O número de empresas de biotecnologia na Europa era, em 2006, de 3377. Em Portugal as entidades ligadas à Biotecnologia eram, em 2008, 57, tendo havido um crescimento anual médio de 19% desde 2002;
  • As empresas de biotecnologia empregam diretamente na Europa 96500 pessoas. Em Portugal o setor emprega diretamente perto de 700 pessoas. Em ambos os casos, porém, existe um número muito superior de empregos em Biotecnologia em empresas de outros setores;
  • Em Portugal, mais de 10% dos recursos humanos das empresas de biotecnologia possuem doutoramento e mais de 70% possuem Licenciatura ou Mestrado.

No entanto, as empresas nacionais com maior maturidade têm tido dificuldades em prosseguir um crescimento sustentado, quer por dificuldades em acesso a financiamento, quer por falta de massa crítica em Biotecnologia empresarial no país. Essas dificuldades foram, nos últimos tempos, agravadas pela atual crise, que tem afetado significativamente todos os setores económicos que fazem uso da biotecnologia.

Deste ponto de vista Portugal coloca-se hoje perante um dilema. Não restam dúvidas que foi feito um esforço importante, nos últimos vinte anos, a nível do investimento público em I&D, resultando num notável aumento no número de doutorados e de publicações científicas com origem em Portugal, e numa clara melhoria das infraestruturas. Este progresso foi particularmente sensível nas áreas que estão na base da biotecnologia e das Lifescience. No entanto, apesar da biotecnologia representar atualmente quase 10% das patentes submetidas por inventores Portugueses, o valor económico do setor só se registará ao final de um tempo alargado e não num intervalo de curto prazo.

A Biotecnologia e o setor das Lifescience ganhou uma dinâmica difícil de ignorar, especialmente atendendo à fusão em curso das Lifescience com as tecnologias, e que obriga todos os países e regiões a apostarem no setor, sob prejuízo de aumentarem a sua dependência económica, energética, social e até política daqueles que o estão a fazer. Será essa a razão pela qual, aliás, quase todos os países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento declararam, de várias formas, o setor como prioritário – desde o Reino Unido à Malásia, de Espanha ao Brasil, de Israel aos países escandinavos. Vários destes países têm inclusivamente agências governamentais ou órgãos interministeriais dedicados exclusivamente ao setor.